Voluntários instalam lavatórios para atender população de rua em Porto Alegre

Primeira pia foi instalada sob o Viaduto da Conceição, no Centro Histórico

FOTOS LEONARDO BRAWL MÁRQUEZ/DIVULGAÇÃO/JC


No centro da orientação das autoridades de saúde para prevenir e combater a Covid-19, a higiene das mãos tem mobilizado redes de solidariedade. Em Porto Alegre, porém, uma ação de voluntários que disponibilizam lavatórios para a população de rua encontra resistência do poder público.
Nesta quinta-feira, dia 9 de abril, os coletivos Cozinheiros do Bem e Trans.LAB/URB instalaram uma pia sob o Viaduto da Conceição, no Centro. Esta é a primeira de 10 que foram adquiridas por voluntários a um curso de médio R$610,00 cada, incluindo a taxa de entrega, para atender quem não tem outra opção de lugar para lavar as mãos.
As tratativas para a compra e para a instalação iniciaram há pelo menos três semanas, quando as primeiras medidas de quarentena em função do coronavírus foram adotadas no Brasil.

Julio Ritta, um dos coordenadores do Cozinheiros do Bem, conta que o coletivo procurou a prefeitura para apresentar a proposta e pedir que o poder público fornecesse um ponto de água em cada instalação - os locais escolhidos são os mais comumente frequentados por pessoas em situação de rua. A ação, contudo, foi rejeitada pela prefeitura.

"Disseram que não apoiariam porque daria aglomeração. É absurdo pensar que a população vai pra rua porque tem uma pia", afirma Ritta. Procurada, a prefeitura de Porto Alegre disse que não falará sobre esse assunto.
Apesar da negativa, o grupo mantêm o cronograma de instalação dos lavatórios, que seguem pelos próximos dias. Com a repercussão do caso, novos voluntários estão se agregando ao grupo. Um deles é Vinicius Pereira, que produziu equipamentos com recursos próprios, conforme noticiado pela coluna.

'Discussão é sobre democratização da água no espaço público' diz urbanista


Para o arquiteto e urbanista Leonardo Brawl Márquez, integrante do coletivo TransLAB.URB, que participa da iniciativa de instalação dos lavatórios em espaços públicos, "a discussão é sobre a democratização da água no espaço público". A retirada da acesso à água em espaço público, continua Márquez, já está sendo revista em outros países.
No caso de Porto Alegre, além de atender a demanda emergencial criada pela pandemia de Covid-19, Márquez acredita que o lavatório pode fomentar o debate sobre a função do mobiliário no espaço urbano. Como exemplo cita o próprio Viaduto da Conceição, local que abriga terminal de ônibus vindos da região metropolitana e que concentra grande volume de comércio informal no dia a dia. Nesse caso, justifica, "a pia serve para todo mudo que passa".


Como o lavatório funciona

Adaptadas para espaços externos, cada pia é praticamente independente. Não há um sistema de válvula para a saída da água - o acionamento é feito por um pedal, que projeta a água até a torneira. Além disso, um compartimento para sabonete líquido está embutido na estrutura. Após pegar o sabonete, o mecanismo da pia permite que a mão seja higienizada sem outro tipo de contato direto com o equipamento, o que o torna ainda mais higiênico.
A própria estrutura comporta um reservatório para a água de cerca de 4 litros. Sem apoio da prefeitura para ligar o lavatório a um ponto de água, que permitiria o abastecimento constante, a solução encontrada foi instalar junto um tonel com capacidade para 200 litros, que precisa ser reabastecido. Em cada ponto, a água será descartada em um canteiro próximo.
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